Não é de hoje que as mulheres vem conquistando cada vez mais espaços em todas as áreas de trabalho. Na comunicação não é diferente. Se era comum vermos apenas homens segurando câmeras e registrando o mundo, atualmente – principalmente pelo avanço tecnológico e maior interesse – temos mulheres dominando filmagens e fotografias, seja para fins profissionais ou iniciativas independentes, como blogs.

É o caso das jornalistas manauaras Camila Baranda, que está morando em Londres (Inglaterra), e Cynthia Blink, em Paris (França), que decidiram criar e realizar produções audiovisuais para falar sobre suas experiências, mostrando a cultura, costumes e arquitetura dos lugares. O diferencial é a linguagem da videorreportagem, onde elas operam a câmera, apuram e falam a informação, editam e divulgam o material.

É o que você confere, a seguir, nesta dupla entrevista, realizada por email, onde elas responderam as mesmas perguntas falando de suas experiências similares mas cada uma no seu jeito diferente.

Camila e Cynthia VRs 1024x768 02 Camila Baranda, em Londres, e Cynthia Blink, em Paris, produzindo vídeos para compartilhar suas experiências. Fotos: Arquivo pessoal e Reprodução/Facebook.

01 – Como surgiu a ideia de produção de vídeo, principalmente para mostrar uma cultura de outro país para brasileiros, em especial os manauaras?

Camila: Acho que surgiu daquela inquietação que todo jornalista sempre tem quando chega em um lugar novo: descobrir, desbravar e espalhar informação. Eu já acompanho vloggers no Youtube há uns 2 anos e sempre curti a ideia de fazer isso, mas nunca tive coragem, tempo ou iniciativa. Assim que me mudei pra Inglaterra, a vontade de apostar em projetos pessoais ressurgiu, resolvi perder a vergonha e começar a produzir. Apesar de já ter vindo outras vezes pra cá, essa é a primeira vez que estou morando aqui, então estou usando os vídeos como uma oportunidade de conhecer melhor os lugares e ainda mostrar paras outras pessoas como é que as coisas funcionam aqui.

Cynthia: Eu e Milena Bittencourt (que grava os vídeos nos EUA) queríamos fazer algum trabalho jornalístico juntas. Até que uma amiga foi a Paris com um desses pacotes de viagens que comprou no Brasil e eu vi que os preços eram exorbitantes! Chegando na França, também aconteceu de cobrarem mais caro dela, como o táxi para aeroporto e outros serviços… Contei dessa experiência com minha amiga para a Milena e ela falou que é comum acontecer esse tipo de coisa com os turístas que vão aos EUA também e concordamos que poderíamos contribuir com informações práticas de economia para os turistas brasileiros, por isso, focamos em dicas de hospedagem, transporte e alimentação. Os manauaras acessam primeiro e se identificam mais com o projeto por causa da origem das apresentadoras (eu e Milena) e sempre lembramos da nossa cidade nos vídeos.

Neste vídeo, Camila Baranda fala sobre um mercado de rua em Londres, onde existe um Wrap de picanha.

02 – Qual (ou quais) a(s) vantagem(ns) e desafio(s) na produção desses vídeos?

Camila: A vantagem é produzir o que você quer, como você quer e da maneira que você quer. E os desafios são muitos! Principalmente no que diz respeito a parte técnica. Sempre tive noção de edição e filmagem, coisa básica, e pra mim isso tem sido o mais difícil. Fico sempre preocupada com o foco, com o áudio, com a luz, o que acaba tornando – às vezes – o processo um pouco estressante, mas nada demais.

Cynthia: Todos os desafios! Tanto eu quanto Milena somos repórteres de jornal impresso, quer dizer, não temos praticamente nenhuma intimidade com a câmera ou a edição. Mas sabemos que esse era o melhor formato para o projeto e foi um desafio pessoal mesmo de “vamos largar nossos confortáveis bloquinhos e a canetas e pegar as nossas câmeras”. Outro desconforto acontece durante as gravações, mesmo na França, onde as pessoas são discretas, elas lançam um olhar curioso quando me encontram por aí sozinha falando com uma câmera (risos), mas tô aprendendo a levar isso com naturalidade. As vantagens também existem, claro! Acho que posso gravar esse canal pelos próximos 100 anos se depender da quantidade de pautas que a França proporciona pela riqueza em muitos aspectos: na arte, na gastronomia, na vida noturna… A principal vantagem/incentivo é a participação do público, são nos comentários que sabemos que estamos realmente passando uma informação útil que vai de fato servir na viagem de alguém. Alcançar o objetivo é recompensador.

Neste vídeo, Cynthia Blink mostra como economizar andando de metrô em Paris.

03 – Como você pensa no conteúdo e na forma, desde a ideia de sobre o que falar até a captura, edição e upload? Comente um pouco sobre esse processo.

Camila: Eu ainda não tenho um processo certo, mesmo porque o canal é bem novo e estou naquela fase de experimentação. Mas estou sempre atrás de um conteúdo interessante, que fuja um pouco do que já existe por ai na rede. Por exemplo: você vai achar centenas de vídeos no Youtube sobre a London Eye, Palácio de Buckingham e o Big Ben (principais pontos turísticos de Londres), mas dificilmente vai achar um vídeo sobre um mercado de rua descolado onde brasileiros tem uma barraca e vendem wrap de picanha. É nisso que eu foco, em buscar experiências e alternativas para aqueles que um dia pensam em visitar a cidade ou que tem apenas curiosidade. Não trabalho com roteiro, só me preocupo em fazer uma boa pesquisa antes de sair de casa. Mas quando chego no local da pauta, a ideia é ligar a câmera e gravar o máximo (até a bateria acabar e o cartão de memória ficar lotado). Geralmente, na volta pra casa vou pré-selecionando as imagens e já vou pensando em como vou montar a edição. Ainda estou apanhando um pouco na edição, mas acho que estou perto do formato que eu quero. Sempre edito na segunda-fera e posto o vídeo na terça-feira.

Cynthia: Já saio para gravar com um roteirinho do que devo informar e os lugares que vou mostrar para isso, mas não é “uma camisa de força”, se no caminho acontecer um imprevisto ou eu achar um outro lugar que valha a pena mostrar, me adapto e incluo no vídeo. A edição, para mim, é um problema porque ainda não domino a ferramenta, mas acredito que meu próximo vídeo será melhor, com menos falhas de edição. Quanto ao upload não há problema, costuma ser bem rápido, nessa fase o mais desafiador é pensar no título que vai ali em cima do vídeo.

04 – Que equipamento e softwares usa?

Camila: Para filmar, eu uso uma Canon 700D e, de vez em quando, o meu celular (Iphone 4s). Já para editar, uso o Final Cut Pro X.

Cynthia: Um Iphone (para gravar) e Sony Vegas (na edição), por agora.

05 – Se inspira / inspirou em alguém pra produzir?

Camila: Não exatamente. A inspiração vem mais na forma de motivação do que em tentar fazer algo igual ao que uma pessoa X já faz. Como eu falei, acompanho tudo que é tipo de canal no Youtube: de culinária a tutorial de maquiagem, de cotidiano a vlog de opinião e humor. Agora que tenho um canal também, procuro prestar mais atenção no formato dos vídeos, na linguagem dos vloggers e absorver detalhes que se encaixam na minha personalidade. Os canais que eu assisto com mais frequência são: CTFxC, Anna Akana, Fung Bros Comedy, Shaytards, Community Channel e Jenna Marbles (internacionais); 5inco minutos, Gustavo Horn e Universidade Capenga (nacionais).

Cynthia: Sou viciada no YouTube! Não faço os vídeos pensando “vou fazer igual aquela ou aquele”, mas é claro que acabam influenciando. Assisto muitos vlogs, mas os canais que eu acompanho e que tem muito a ver com o Manauaras pelo mundo são: Cintia disse e Lully de verdade. Gosto da espontaneidade da primeira e do conteúdo da segunda, a Lully consegue transmitir muita informação sem precisar de muito tempo de vídeo.

06 – Na área da produção audiovisual, estamos mais acostumados a ver homens com câmera na mão, sendo cinegrafistas ou videorrepórteres… como você enxerga a inserção feminina nesta área?

Camila: Realmente, trabalhei quase 5 anos em televisão e só tinha uma cinegrafista. Eu acho sensacional que as mulheres busquem também mais espaço nessa área,mesmo porque convenhamos que o sexo da pessoa não representa em nada a qualidade do trabalho dela. Sendo bem sincera, eu nunca paro para pensar nisso quando eu estou fazendo as minhas filmagens, já que não me considero cinegrafista e nem videorreporter. Me enxergo como uma jornalista explorando novas ferramentas, só isso.

Cynthia: Estamos em uma era em que felizmente as mulheres tem seu espaço em todos os setores profissionais. É muito bom poder fazer parte dessa revolução. Eu e a Milena lutamos por nosso espaço fora do Brasil e agora queremos mostrar a força que as Manauaras possuem. Nessa resposta podemos falar também sobre o Youtube, que ainda tem uma participação tímida do Norte do Brasil e é uma grande satisfação poder colaborar como amazonense.

07 – Qual dica você daria para quem quer enveredar por esse caminho também, seja para atuação profissional ou mesmo apenas para registros independentes?

Camila: Bom, já que estou amadurecendo nessa área e ainda preciso aprender muita coisa, a única dica que eu tenho pra dar é aquela que eu gostaria de ouvir de alguém com um pouco mais experiência: VÁ E FAÇA! Mesmo que você não saiba filmar direito, nem editar, com a prática tudo vai se resolvendo. O importante é acreditar na sua ideia e no conteúdo que você quer mostrar.

Cynthia: Comece! Falta de um equipamento adequado, experiência ou a sua aparência, nada disso é desculpa. Sempre vai ter uma coisa que não vai ficar boa ou que você não vai gostar, mas com o tempo e também com as dicas de quem assiste, você vai conseguir entregar vídeos melhores e mais completos quanto ao conteúdo e a forma.

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